
Os pragmáticos
Os pragmáticos saíram às ruas proclamando seus interesses. Eles não acreditavam no amor e diziam, gritavam a nós, que amar era um pecado capital. E aqueles que formassem resistência seriam punidos com a mais severa das penas: padeceriam de amor pelo resto da vida. Viveriam com suas mentes doentes, pois de amor não se morre, mas se chega quase lá.
Eu não pude deixar de me tornar resistência. Todos os dias, eles chegavam em nossas ruas, despertavam-nos dos mais belos sonhos, e nós íamos para a rua, num combate poético, onde proclamávamos os poemas mais lindos de toda a humanidade. Queríamos convencê-los de que amar jamais seria um pecado.
Durante a resistência, conheci um dos pragmáticos. Comigo não seria diferente: me apaixonei por ele, um dos líderes. Eu percebia seu olhar indo ao encontro do meu. E eu jurava que ele sentia o mesmo. Uma noite, ele me capturou e, por seguidas vezes, nos amamos escondidos na calada da noite, onde só o silêncio testemunhava nosso sentimento. Passamos anos fingindo que aquilo não acontecia. Durante o dia, eu era resistência; ele, apesar de amar, tomava seu posto de líder e continuava a punir aqueles a padecer de amor.
Depois de alguns anos, eu implorei que ele saísse das forças e vivesse comigo o bel-prazer do amor. Ele se negava. Jamais permitiria perder seu posto. Ele não sabia viver de outro jeito. Lamentei o quanto pude, pois era essa a vida que eu não queria, mas que desejava que um dia se tornasse realidade.
Chegou, em uma quinta-feira, a notícia de que ele seria comandante das forças em outro lugar. Eu me desesperei. Eu sabia que era o começo do fim. Ele escolheu ir.
Nos permitimos, por alguns meses, amarmos ainda na calada da noite. Mas era impossível viver com essa distância e com o medo de sermos descobertos. Ele, talvez, nunca tenha se entregado por inteiro.
Um dia, cheguei para um de nossos encontros e lá eu estava, com minhas malas ainda na porta, quando ele disse: “nós acabamos por aqui”. Eu não precisei de condenação das forças. A dor de perdê-lo era maior do que tudo. Eu conhecia perfeitamente o processo de amar, mas o desamar era dilacerante. Não só padeci, como vivi por anos esperando-o. Quando saía alguma notícia sua, eu era a primeira a correr e comprar os jornais. Ele, como sempre, estava com aquela postura de líder sem arrependimentos. Eu olhava, olhava e olhava e nem por um segundo conseguia me ressentir; só sentia aquele amor, ainda latente em meu peito, querendo-o mais.
No fim, os pragmáticos ganharam a guerra. Eu já era incapaz de amar um outro alguém. E, desde então, segui contando as noites com a esperança de que um dia ele voltasse. No fim, percebi que era possível morrer de amor sem que o coração parasse de bater. E foi aí que eu descobri: eu me suicidei da maneira mais bela, me apaixonei por alguém que não podia ter.























